Ela é Doce
"Com criança no colo e pés no chão." O primeiro verso veio antes de tudo — e veio como soneto.
Escrevi a peça em forma fixa, quatorze versos em decassílabo, sobre as mulheres que criam filhos sozinhas: as que assumiram o papel de mãe e de pai e ainda assim continuam capazes de amar e de acreditar no amor. Santas anônimas, heroínas da rotina, que muito admiro.
Só depois percebi que aquilo queria ser canção. Dissolvi os tercetos em quadras para dar regularidade ao canto, e o refrão nasceu junto com a melodia, fora da forma do soneto, mais curto, com respiração: Ela é doce... do que lhe fez algum mal... guardou-se. Foi ali que a canção encontrou o que o soneto não dizia — a vida interior de quem se protege sem endurecer.
O arranjo é MPB com respiração de jazz brasileiro: saxofone, violoncelo e violão, com a voz de barítono quase falada, do jeito que aprendi a gostar ouvindo a MPB dos anos 70. A capa é minha também — a bola desbotada sob o pé descalço cita, sem dizer, a lua sob os pés da mulher da tradição cristã.
Sobre o título. Cheguei a pensar em "Invencível" e em "Heroína da Rotina". Fiquei com este porque a doçura, aqui, não é o contrário da força: é o que sobreviveu a ela. Ela é doce porque não é covarde. É doce pela resiliência de quem guarda o coração.
A canção chega às plataformas em 19 de agosto. Salve na sua playlist e participe da homenagem:
