MINHA EXPERIÊNCIA DE FÉ

Rubem Fonseca disse em um dos seus romances que as pessoas são como pedras preciosas. Quanto mais dura, mais valiosa. Gosto da comparação, mas ressalto a capacidade de refletir a luz. A dureza não pode ser confundida com teimosia, o que tornaria uma pessoa opaca. Ao contrário, quanto mais mole, no sentido de maleável, flexível, maior a capacidade de resiliência me parece ter uma pessoa. A dureza que produz brilho nas pessoas, portanto, é a da fidelidade. Quanto mais inviolável o compromisso com o Senhor, maior reflexo de sua luz. Afinal, Ele mesmo disse que é a luz do mundo.

Um coração duro, por exemplo, é um coração orgulhoso. Ora, o orgulho é o pai de todos os pecados. É o que afasta o homem do seu Criador, tornando-o menos semelhante à essência e o aproximando do inimigo, Satanás (o orgulhoso).

O orgulho leva as pessoas a preferirem as ilusões à verdade, uma vez que apenas a ilusão alimenta a sensação de destaque e grandeza individual, produzindo a soberba humana diante de Deus. A mentira é uma tentativa de criar um ambiente de trevas em que a verdade (a Luz) não consiga penetrar. O desejo do homem de viver longe dos olhos de Deus, à revelia de Seu julgamento, leva-o a acreditar (preferir) que seja possível isso. Aliás, prefere crer que seja impossível que Deus exista ou que seja tão presente.

O brilho não é luz própria, porém, reflexo da Luz. Logo, podemos também dizer que é reflexo da verdade. Ninguém é dono dela. No máximo, podemos pertencer e refletir a verdade. Assim, busco o quanto posso pela comunhão com Jesus, o caminho, a verdade e a vida.

Não fui sempre assim. Confiava na minha capacidade para reverter situações, resolver problemas e, assim, fazia eu mesmo o meu caminho, tudo do meu jeito, sem prudência, como se tudo eu pudesse consertar depois. Quando confiamos na força humana, não consideramos nossa dependência de Deus, não observamos Suas leis nem ouvimos seu Espírito, que são os conselhos da prudência e do amor.

Errei muito, acreditando na minha capacidade ou mesmo depositando minhas esperanças na ajuda das pessoas e, não raras vezes, no dinheiro, idolatrando-o como solução. Fui entrando em desespero. Em 2011, minha alma chorava e clamava por ajuda divina. Quando eu ia à Missa, chorava copiosamente. Sim, de molhar a camisa. Tentava não preocupar familiares que me viam chorando, dizendo que não era de tristeza. Não sabia por que chorava tanto, durante as Missas ou quando rezava. Na época eu dizia que era uma sensação de êxtase.​

Desde 2007, suspeitava de que graves doenças me cercavam. Sentia o corpo muito enrijecido e a terrível sensação de peso. Identifiquei essa fase com um salmo de Davi que diz “era como se meus ossos fossem esmagados”. O estresse modificava minha postura. Acordava com mau humor, resmungando. Percebi em várias fotografias que meus pulsos estavam se contorcendo, sem que eu percebesse. Sai em várias fotos, com as duas mãos cerradas e os pulsos dobrados para dentro. Era um estranho sinal de algo errado, que eu não conseguia entender.

Minha salvação foi Jesus, que teve piedade de mim e me alcançou, salvando-me no dia exato em que eu ia morrer, 18 de outubro de 2011. Havia entregado minha vida a Ele, no início daquele mesmo ano, mas não entendi direito o que estava fazendo e continuei vivendo em pecado. Jesus teve compaixão e me fez ouvir uma promessa, antes do caos que eu mesmo tinha semeado para minha vida. Essa promessa, de que iria arrumar uma pá para eu desenterrar meu sonho e que algo grande iria acontecer, foi o que me segurou no dia mau. Quando vi meu castelo de areia desmoronar, lembrei-me da promessa e pensei “deve ser a pá para eu desenterrar meu sonho”. Diria hoje, está piorando para melhorar. Então, esse fio de esperança me manteve vivo. Movido pela esperança, clamei a Jesus pela vida e o Senhor me salvou.

A partir desse dia, entreguei-me verdadeiramente ao meu Senhor e disse que só faria o que me mandasse. Daí em diante, passei a enxergar Sua mão e me senti guiado por Ele. O Espírito Santo estava aceso em mim, traduzindo a vontade de Deus e eu procurei seguir a orientação. Num primeiro momento, muitas soluções surgiram do nada e eu fui me organizando. Ainda tentei trabalhar por dinheiro, mas encontrei muitas dificuldades e fui tocado por Deus para doar o meu serviço e confiar apenas Nele na esperança de recompensa. Atendi a essa orientação e fui percebendo Deus provendo na minha vida. O ano de 2012 foi o de reconhecimento da minha dependência e do poder do Senhor. Havia me tornado outra pessoa (veja semblante da foto nesta página, tirada em 2012). Sentia-me leve, contente, com as forças renovadas e cheio de esperança e fé. Foi quando testemunhei o amor imensurável de Deus e o Seu poder ilimitado. Presenciei muitas maravilhas, fui atendido em pequenos pedidos do dia a dia e testemunhei milagres. Nesse período, acho que fui preparado para o que viria, um treinamento mais intenso. No final daquele ano, fui avisado de que o grau de dificuldades aumentaria e entendi que passaria por provações.

Fui conduzido pelo Espírito Santo a passar pelas cidades em que já tinha morado, vivendo de caridade, despertando a piedade dos amigos que prontamente me ajudaram. Sobrevivi porque, pela graça de Deus, muitos me deram o de comer e de beber. O Senhor os abençoe! Um amigo pagou algumas diárias de hotel e disponibilizou uma casa para eu ficar (por mais de um ano). Outros me convidaram para almoçar e até para tomar café da manhã, mesmo não sabendo se eu estava com fome. Enquanto eu ainda tinha carro, um amigo abriu a conta da empresa dele num posto de combustível para eu abastecer, sempre que precisasse. Fizeram-me companhia generosa, compreendendo e perdoando meu momento difícil. É verdade que alguns queriam e insistiram para que eu voltasse a viver como antes, mesmo admitindo que eu estava melhor. Eu entendo que eram pessoas que me amavam, mesmo sabendo do errado que eu era (rs). E assim fui vivendo, raramente remunerado pelo trabalho que fazia, mas sendo muito agraciado por Deus, principalmente através da caridade de almas generosas.

Em março de 2015, fui chamado por minha mãe para visitá-la. Perguntei a Deus se era para eu ir. O Senhor me confirmou. Eu não tinha dinheiro para fechar a conta do hotel em Ourinhos e não sabia se o valor que eu tinha era suficiente para comprar a passagem de avião. Mesmo assim, deixei minha conta aberta no hotel e aproveitei a carona de um amigo, indo para o aeroporto em São Paulo. O dinheiro foi exato para comprar a passagem de um único voo que chegaria depois de meia noite, ou seja, no dia seguinte. Cheguei a Salvador quando completavam exatos 30 anos que havia partido para estudar em São Paulo.

Em Salvador, um grande amigo me convidou para trabalhar em sua agência, oferecendo-me até apartamento para eu morar. Foi a senha para entender que Deus queria que eu passasse a morar em Salvador. Outro amigo me emprestou um dinheiro para eu pagar o hotel de Ourinhos. Enfim, fechei a conta, depositei o valor e pedi para que doassem as poucas roupas que tinham ficado lá. Depois de um tempo, minha mãe manifestou que queria morar comigo e foi para o apartamento que eu estava, no Corredor da Vitória. Cerca de um ano depois, minha irmã dispensou um inquilino e se mudou para outro apartamento de minha mãe, deixando o que ela estava para que eu e minha mãe ficássemos. Por problemas de saúde, mamãe precisava de cuidados e entendi que Deus queria que eu cuidasse dela. Acho até que me preparou para isso, dando-me mais paciência e multiplicando a boa vontade. Não é fácil, mas conto com a ajuda do Senhor.

Foi impressionante, quando meus tios levaram um quadro de Nossa Senhora do Perpétuo e Socorro. Minha tia Socorro adquiriu aquela imagem no Vaticano, em Roma, e a deu à minha mãe, cujo nome é Perpétua. Meu tio Humberto agregou à linda imagem uma moldura condizente e nós, enlevados pela sua beleza, penduramos o quadro na nossa sala. A partir desse dia, percebemos uma mudança na atmosfera espiritual. Minha mãe foi ficando cada vez mais calma e o lar, visivelmente, mais confortável espiritualmente. Para mim, era um sinal de Deus, de que a partir daquela data a casa estaria sob maior proteção divina, por intercessão de Nossa Senhora. A participação dos meus tios, que deram juntos o presente, revela a contribuição dos familiares em orações por minha mãe. Tenho uma profunda gratidão a todos por isso.

Neste mês de abril de 2022, quase onze anos depois de ter iniciado minha jornada espiritual, sinto que as provações aumentaram e tenho enfrentado desafios maiores. Tenho receio de não suportar. Peço orações e suplico pela misericórdia de Deus.